Todas as equipas (de todas as modalidades) necessitam de alguém que as lidere fora (treinadores) e dentro de campo. Costuma dizer-se que há jogadores que carregam consigo características de líderança e que conseguem ser a voz de comando dentro de campo, passando aos restantes colegas diferentes mensagens que o treinador, por vezes, não consegue passar. Temos, assim, diferentes tipos de líder que podem aparecer nas equipas, consoante as suas características pessoais e conforme o que exige o contexto. Temos líderes como Jorge Costa, João Pinto, Zanetti, Puyol, Roy Keane ou Gary Neville, que nunca deixam que a mentalidade da equipa esmoreça. Que berram aos ouvidos dos colegas, se necessário for, mas que são capazes de colocar o colectivo sempre à frente dos seus egos. São os líderes "antes quebrar que torcer", muitas vezes medianos a nível técnico, mas com uma consciência colectiva acima de qualquer outro. Por outro lado, temos os que comandam a equipa na vertente mais tecnico-táctica do jogo. Falamos aqui de Pirlo, Giggs, Xavi ou Deco, que encarnam o tipo de jogador que percebe sempre aquilo de que a equipa necessita nos diferentes momentos do jogo. São jogadores com bons pés e uma inteligência táctica acima do normal, que gerem ritmos como ninguém.
Podemos considerar Lucho Gonzalez como um líder nas duas vertentes que abordei, embora com maior notoriedade na segunda.
Lucho foi um jogador determinante em todas as épocas em que jogou pelo F.C.Porto, quer sob a mão de Jesualdo, quer com a orientação de Vítor Pereira. Não é por acaso que conquistou títulos em todas as épocas (excepto na que terminou há semanas). Lucho sempre foi o jogador que não sabia jogar mal. Ao lado de Meireles ou Anderson, Assunção ou Fernando e Moutinho ou Defour sempre foi o mais regular dos jogadores do F.C.Porto naquele meio-campo a três.
Lento? Dizia Vitor Pereira: "Lucho é dos jogadores mais rápidos que temos. Não há ninguém que tenha a sua velocidade de raciocínio dentro de campo". Para os que vêem o jogo sempre à espera que haja golos de pontapé de bicicleta ou a 40 metros da baliza, talvez Lucho fosse um jogador banal. Mas bastava perder um bocadinho do jogo a focar somente a figura do nº 8 ou nº 3 para perceber melhor aquilo que trazia à equipa.
Sendo assim, foi com enorme estranheza que vi a sua saída no decurso desta época. Um líder de balneário, capitão de equipa, que regressa à casa mãe mesmo que o contrato não seja tão "volumoso" como em Marselha, sai assim, a meio de uma época tão difícil? O Lucho? O mesmo que jogou mesmo sabendo da morte do pai, que tantas vezes jogou dimiuído fisicamente e que nunca virou a cara à luta?
Correram inúmeros boatos em relação a esta saída. Diz-se que foi devido à questão financeira; ouvi também que se deveu a problemas com PF. Não vou alimentar aqui especulações, mas custa-me crer que tenha sido "normal" a saída de El Comandante, ainda por cima no "timing" em que ocorreu e para o campeonato que foi. A verdade é que deixar sair com tanta ligeireza um jogador da importância colectiva de Lucho foi um enorme tiro no pé. É certo que passou metade da época a ser utilizado de forma incorrecta pela teimosia sobranceira de PF, e que isso o levou ao desgaste total num curto período de tempo, mas Lucho precisava e merecia ficar no Porto e terminar aqui a sua carreira. Precisávamos de Lucho quando tudo entrou num declínio absoluto. Luís Castro precisava de Lucho para o ajudar a "colar os cacos" deixados pelo reinado de PF. Precisávamos de Lucho no inferno de Sevilha e na miserável noite na Luz. Precisávamos de Lucho para pegar na batuta e, jogando na sua posição mais familiar, comandar o nosso jogo. Precisávamos de Lucho para colocar algum juízo nas criancices de Quaresma. Precisávamos de Lucho quando o tendão de Aquiles de Hélton cedeu. A equipa, o treinador e, sobretudo, os adeptos, precisavam de olhar para o campo e ver Lucho para poderem acreditar. Para termos um (UM ÚNICO!) jogador que realmente seja um ídolo intemporal; aquele cujo nome todos sonhamos ter nas costas das nossas camisolas azuis e brancas.
Que tremendo erro cometemos ao deixar fugir uma das nossas raridades: alguém que joga pelo colegas e pelos adeptos; alguém que sabe o que é "Ser Porto" ainda antes de saber respirar, e sem precisar de espetar isso nos Twitters e Facebooks só para "ver se cola".
Sonho que um dia Lucho possa voltar ao F.C.Porto pela porta grande, como o grande jogador e comandante que sempre foi. E o estádio, de pé, vai cantar "Lucho, Lucho, Lucho Gonzaleeeez!".
